Pular para o conteúdo principal

Sim






Clara fazia força para que seus pensamentos acompanhassem as batidas de seu coração que batia rápido como nunca.
 - Faz um tempo que eu queria te falar isso.
Essa foi a frase que antecedeu o sorriso que se arquitetou na boca do homem que aparentemente sabia seu manual de instruções de cór. Depois de alguns segundos de perplexidade, Clara percebeu que seu queixo já encostava em seu colo quando finalmente organizou seus sentimentos: a indignação se misturava com a dor de um recado qeu veio tarde demais.

Bruno tentava disfarçar a ansiedade, mas sua paciência havia esgotado. Ensaiara para esse momento por tantos anos, que já lhe falhavam a conta. E agora, estava ali, esperando a resposta que por tantos anos imaginou.

Clara sorriu. Ensaiou começar uma frase por algumas vezes, quando finalmente a voz veio e ela apenas perguntou:
- Desde quando?
- Desde que te vi naquele ginásio, toda suada e com o tornozelo machucado.
Desse momento ela se lembrava bem: tinha apenas 10 anos e se machucara durante uma partida de volei e em meio a lágrimas, avistou de longe um menino que veio em sua direção oferecendo ajuda. Eram duas crianças mas, o pouco cavalherismo que aquele menino apenas 2 anos mais velho que ela demonstrou, fora suficiente para que ela decidisse que se casaria com ele um dia.
"Talvez não casamento, mas pelo menos quero tê-lo na minha vida para sempre" ela pensava tristonha sempre que ele arrumava uma namoradinha nova.

- Mas voce sempre teve outras namoradas, e meninas e eu era sempre...
-..Sempre a única importante dentre elas.

Clara não se enganaria. Era bom ouvir aquilo, como sempre sonhou, mas as coisas naquele momento eram complicadas demias. Finalmente, depois de anos tentando, ela havia conseguido o estágio em Paris que sempre sonhara. Não era momento de ele vir e colocar a sua disposição um outro grande sonho: ficar com ele pelo resto da vida.

-Eu não quero que você desista dos seus sonhos, mas você tinha que saber antes de ir.
Clara não conseguiu segurar sua indignação diante de tal afirmação:
- Agora? Depois de 10 anos? Depois de tantas noites jogando baralho e olhando as estrelas? Agora, depois de 10 anos olhando para mim todos os dias e vendo que eu sofria tanto com outros meninos? Agora, que eu finalmente consegui algo na minha vida que não incluia você?
- Como eu poderia saber...
- ..que eu te amava? - Completou ela em meio a lágrimas - Eu passei 10 anos te amando e quando finalmente consigo dar um passo a frente nessa teia que me prende que é você, você vem me dizer que me ama?

Bruno não falou nada. Apenas fez o que sempre fazia quando ela estava chateada. A abraçou. Clara tentou resistir e depois se rendeu aquele abraço que sempre sabia fazê-la sorrir. O cheiro dele a envolveu e ela despencou em lágrimas nos braços daquele que fazia com que o resto do mundo desaparecesse.

O funcionário do aeroporto a alertou de que ela precisava embarcar. Tentando sorrir, Clara olhou para o corredor que a levaria para seu sucesso pessoal e profissional e para o homem que a levaria as estrelas.
Ela mecheu em seu cabelo, olhou em seus olhos, sorriu e disse:

- Sim.

Bruno assistiu o amor de sua vida entrar pelo corredor, e de repente uma alegria inundou seu coração, ele sorriu, virou as costas, e foi arrumar suas malas.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Conto dramático - Angústia, silêncio, solidão.

                          Já marcavam 5:30 quando me dei conta de que estava sozinha; dei mais uma olhada para ter certeza e me deparei com o desespero da solidão. Respirei fundo e pronunciei bem baixinho o nome de meu marido, e naquele quarto escuro obtibe a pior das respostas: o silêncio. Vasculhei minha memória para tentar resgatar alguma lembrança de seus planos para aquela noite, mas para o meu desalento naão conseguia me lembrar de nada.  Me levantei para checar as crianças mas algo prendeu minha atenção: quando olhei para cama onde antes descansava - por mais que a escuridão tentasse me impedir - constatei que era uma cama de solteiro. Aquilo despertou em mim uma tristeza profunda e medo, muito medo. Dúvidas rondavam minha mente como: Por quê não conseguia me lembrar de nada? Será que ele favia me deixado?  Meu coração foi se apertando e lágr...

Pontinhos Coloridos no fundo azul - Narraçao (nao me lembro a faculdade)

                   - Não me importa sua opinião, você vai fazer exatamente como os outros fazem. Fui claro? Pedro apenas concordou balançando a cabeça e se limitou a dar um sorriso. Ele compreendia sua pequenês diante da grande máquina que lhe dava ordens. Era apenas mais um, no meio de bilhões de pontinhos coloridos sobre o fundo azul.  Não era o primeiro a questionar a ordem estabelecida e com certeza não seria o último. Às vezes, o "GPS" desses pontinhos fava um probleminha ou outro, os permitindo olhar para os lados, e era pra  esse tipo de problema que eles estavam sob olhos atentos que imediatamente davam um jeito.  Enquanto Pedro andava de volta para suas funções, esbarrou em um pontinho diferente de todos os outros que já tinha visto. A cor era tão alegre e viva, que ele quase não conseguiu defini-la. Com muito esforço, decidiu que era uma mistura refrescante de amarelo, laranjado e vermelho. Seu coraçã...

Eu

A lua e as estrelas me remetem aquele dia, aquele momento, em que por reconhecer a beleza das coisas simples você me fez sorrir pela primeira vez. Fez meus olhos brilharem pela primeira vez. Num ato quase involuntário sua voz passou pelos meus ouvidos e era como se fizesse cócegas em todo meu corpo até que, inevitavelmente, eu sorri. Aquele sorriso bobo, gostoso, que vem acompanhado de olhos brilhantes que gritam sentimentos. E foi assim, foi ali. Ali que você me ganhou por inteira. Percebi imediatamente que queria essa voz me acariciando todos os dias antes de dormir, queria essa risada eletrizante me eletrizando, queria te ver amar e ser objeto do seu amor. E tudo ali, debaixo do brilho da lua e das estrelas que comparadas ao seu brilho parecem tão opacas. É incompreensível como o amor acontece em questão de segundos e toma tudo da gente: Nossos pensamentos, nosso tempo, nossos sorrisos, nossas lágrimas, nossos beijos, nossos abraços, nossa dor, nosso fim, nosso começo, nosso eu. E...