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A Vida em metamorfose

- É a vida meu amigo, a vida em metamorfose. - Disse o homem alto que escondia todos os seus sentimentos - e dinheiro - por trás de uma muralha de terno e gravata.

-Nem venha comparar com a transformação de uma borboleta, ou com o crescimento mental ou físico de alguém. A vida tem se metamorfoseado da forma mais triste possível. - Respondeu o homem mais velho, de pele enrugada e unhas sujas de terra. O chapéu de palha já lhe parecia uma segunda pele, seu companheiro fiel que o protegia do sol durante a colheita.

- Como triste? Tudo que você precisa é prestar atenção às placas! Não pare! Fume! Corra! Viva!

-Viva? - Perguntou de forma singela o homem do mato enquanto dava um sorriso cheio de rugas e cansado. Como?

Essa pergunta causou uma certa inquietação no engravatado, que já batia os pés e olhava constantemente no relógio. Bufando, respondeu:

- Oras, como... Como se deve viver! Trabalhar, ganhar dinheiro, viajar...
Nesse momento o homem do mato mudou sua expressão, parecia intrigado...
- Viajar? Vc tem viajado? - perguntou finalmente.
- Claro que sim. Tenho negócios em todo o globo! Difícil é o sr citar um só país que não compre de mim. Tenho tudo que tenho porque batalhei e construí! Trabalhei desde os 14 anos, vida de empreendedor.
- Mas, e a saúde, a família, a esposa? - Perguntou o velho.

- A esposa perdi. Na verdade, perdi as três primeiras. Mas não foi de morte não, bem que podia ser. Me traíram com outro. Filhos tenho também mas todos moram com a mãe.. Saúde... quase 100%. Enfrentei alguns problemas de pele acho que por causa da luz artificial do escritório... Mas sabem o que dizem né? "Ossos do ofício!" Não tem outro jeito de ganhar dinheiro, só se for trabalhando. Afinal, como eu disse, é a vida em metamorfose.

O velho mal teve tempo de esboçar uma resposta, e o homem teve de atender o celular. Atendeu e saiu andando, sem nem lembrar de se despedir. O velho olhou pra senhora que cozia na cadeira de balança ao lado, que durante toda a conversa não mudara muito de expressão. Mas ainda assim o velho decidiu  dizer alguma coisa a respeito.

- É querida. A vida em metamorfose. Metamorfoseando-se em algo sem valor. Algo que já não se respeita mais. Piscamos e a TV já aparece com um modelo novo de algo ainda mais inútil e descartável que o anterior. Colocamos a vida nas coisas e cifrões na vida. A verdade é que ninguém mais sabe segredos de ninguém. O sorriso perdeu seu valor de algo sincero e se transformou em uma máscara que usamos pra evitar aproximação de iguais. Mas o que eles não pensam é que um dia tudo acaba. Um dia a morte chega. E o que importa mesmo não é quantos bens você conquistou e sim quantas pessoas sentirão sua falta.

O barulho da madeira da cadeira em atrito com a madeira do chão era combinado com o tic-tac do relógio quadrado em cima da lareira. A velha, ainda sem expressão, apenas balançou a cabeça. A aliança afundada no dedo combinava com a outra já larga na mão do senhorzinho simpático. Este ficou parado por alguns segundos. As reflexões sobre a morte chegam junto com a velhice. Quando o relógio marcou 4 da tarde, o velho bateu com as duas mãos no joelho, respiirou fundo e se levantou.

- Mas é o nosso filho, vou amá-lo sempre, e foi bom reencontrá-lo depois de tantos anos. Ele tinha razão, conseguiu se virar na vida na cidade grande. Bota mais água no feijão, quem sabe ele não volta pra janta.

E assim passou pela porta, pegou o arreio, e foi tranquilo pro pasto, seu local favorito.

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