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Último romance

A tragédia desse mundo é que ninguém é feliz, não importa se preso a uma época de sofrimento ou de felicidade. A tragédia deste mundo é que todos estão sozinhos. Pois uma vida no passado não pode ser partilhada com o presente, e não há nada que se pode fazer para que isso seja diferente.

A luz do sol, em ângulos abertos, rompe uma janela no fim da tarde. De dentro uma mulher com cabelos molhados, deitada em um sofá, segura a mão de um homem que nunca mais verá novamente. Seu rosto demonstra um vazio intrigante, uma mistura de saudade com tristeza, de compreensão com amor. Para o homem era impossível decifrá-la, e era assim desde que se conheceram: “um grande enigma” era como ele a definia. A chuva caia forte e ele examinava sua mente para se lembrar como havia parado ali, naquela casa abandonada com aquela mulher que ele conhecera a poucos meses.Seus cabelos negros lhe traziam lembranças fortes de dias intensos, mas isso já não era importante, o importante é que a decisão havia sido tomada: ele a deixaria, e não pensaria duas vezes. Não era por maldade ele não tinha muitas escolhas. Os pensamentos passavam rápido por sua cabeça e como um filme ele se lembrava dos últimos dias. Dos bons momentos passados com ela e das perguntas acusadoras da esposa, a verdade é que ele já nem sabia mais o que queria. E assim, o silêncio reinava naquela sala, onde dois corações sofriam e se olhando, ambos choravam.

- Queria ler seus pensamentos – disse o homem.

- Você sabe que é contra as regras – respondeu ela. Um sorriso triste se arquitetou em seu rosto e ela permitiu que as lágrimas rolassem.

- Você e suas regras! – o homem até tentou sorrir, mas as lágrimas eram mais fortes.

Em pouco tempo, ele aprendera a amar aquela mulher enigmática, bem humorada e intrigante. A cada dia, ele descobria algo novo nela, o que trouxe cor a sua velha vida que costumava ser em preto e branco.

- Olha, as coisas não são fáceis para mim, você sabe que eu...

Ela o interrompeu, colocando o dedo em seus lábios.

- Ei, você não precisa se explicar meu amor, eu entendo.

Sua expressão mudara para um sorriso falso, e com olhos de pena, ela o observava, o que lhe fazia sentir seu corpo tremendo como há muito não sentia. Sentia falta de casa e de seus filhos, mas aquele olhar...era envolvente demais, e seu coração se apertava só de imaginar de deixá-la ali, sozinha, naquele lugar desconhecido.

Olhou no relógio que marcava a mesma hora de quando ele a conhecera, o pensamento lhe causou espanto e como se ela lesse seus pensamentos, disse:

- Está na hora, pode ir agora. – e sorriu, dessa vez sorriu de coração, e ele já havia sonhado muito com aquele sorriso. Algo naquela mulher, não era normal, ela era diferente, surreal.

Ela se sentou, passou a mão em seu rosto, ele fechou os olhos para sentir aquelas finas mãos e foi quando sentiu um ultimo beijo. Seu coração pulou em seu peito, e ele abriu os olhos pronto a ficar com ela para sempre, mas ela já não estava mais lá. Lentamente, ele se levantou, andou até a porta e olhando a noite estrelada, sussurrou com uma certa esperança de que ela escutaria:

- Eu te amo até o fim.

Assim, chorou, e andando, foi embora para sua velha vida em preto em branco.

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